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Medir a poluição sonora no mar ou ouvir música debaixo de água já é possível em Portugal
- 11.08.08
A MarSensing, spin-off do Laboratório de Processamento de Sinal (SiPLAB) da UAlg, desenvolveu e trouxe para Portugal um conjunto de equipamentos que permitem não só ouvir música debaixo de água num contexto de lazer, como estudar e mapear o ruído que a actividade humana produz no mundo subaquático, uma forma de poluição que tem um impacto prejudicial na fauna marinha e que a União Europeia já está empenhada em minimizar.
Foi a necessidade de criar o próprio emprego que levou uma equipa de quatro jovens investigadores e engenheiros da UAlg, que trabalham na área do processamento e aquisição de sinais acústicos submarinos, a lançar-se na aventura de criar, em Dezembro último, a sua própria empresa, a MarSensing.~
E se a acústica submarina se aplica tradicionalmente à detecção de peixes e cardumes, Cristiano Soares, Friedrich Zabel, Celestino Martins e António Silva conseguiram imaginar e trazer para Portugal outras aplicações práticas que colocam este campo do conhecimento ao serviço do bem-estar do cidadão comum, mas também ao serviço da preservação do ambiente.
Os serviços da MarSensing incluem a ?aquisição de sinais acústicos submarinos em campanhas científicas, medições de ruído submarino no âmbito de estudos de impacto ambiental, e desenvolvimento de soluções em acústica submarina?, referem os quatro mentores da MarSensing.
Actualmente a MarSensing disponibiliza o conhecimento adquirido pela sua equipa na área da acústica submarina para desenvolver estudos de medição do ruído provocado pela actividade humana em meio subaquático e, ao mesmo tempo, disponibiliza um sistema de colunas sub-aquáticas orientado para a área do lazer, que permite ouvir música debaixo de água em piscinas ou lagoas.
Mas a panóplia de serviços e produtos que a MarSensing tem para oferecer não termina por aqui. A equipa de engenheiros está a trabalhar no desenvolvimento de dois protótipos. O primeiro é um microfone subaquático ? ideal para escutar sons submarinos como os de baleias, golfinhos e outros sons do mar ?, e o segundo um hidrofone digital, ou seja, um sistema de gravação autónomo com diversas aplicações, tais como gravação de sons subaquáticos de vários tipos, graças ao facto de a sua utilização ser quase intuitiva, aliada a uma extrema facilidade de armazenamento de dados. Este sistema poderá abrir muitas possibilidades no mundo científico, já que o conceito subjacente encontra aplicação em actividades com elevados requisitos de operacionalidade, podendo operar na ausência de meios humanos.
Ruído provocado pelo Homem debaixo de água pode ser mapeado
Em termos de legislação, a Comissão Europeia aprovou em Dezembro de 2007 a primeira directiva que reconhece o ruído submarino como uma forma de poluição que deve ser controlada, com vista a atingir as metas gerais de qualidade ambiental em 2020. Inclusive, ?actualmente, os estudos de impacto ambiental já obrigam a uma monitorização da contribuição de uma determinada actividade em termos de ruído subaquático?, aponta Cristiano Soares, Eng.º de Sistemas e Computação.
Porque quem mais sofre com ruído gerado pelas actividades humanas, ou antropogénico, são os cetáceos (golfinhos e baleias), que dependem do som que emitem e recebem para a procura de alimentos, acasalamento, detecção de predadores e comunicação. O ruído antropogénico mascara o som emitido por estes animais, impedindo que ouçam os ecos do mesmo, ou que este seja ouvido por outros animais da mesma espécie.
"Existem relatos de baleias que foram avistadas em zonas do oceano onde supostamente não existem baleias, e isto tem sido interpretado como uma fuga ao ruído produzido por determinada actividade, ou mesmo pânico seguido de desorientação. Existem também relatos de baleias mortas cujas autópsias revelaram lesões fatais em diversos órgãos destes animais, tendo como possível causa a subida repentina à superfície, sem a devida compensação do azoto no sangue?, continua Cristiano Soares.
Deste modo, a MarSensing oferece um serviço que consiste na realização de medições in situ. ?Em cada ponto de medida é feita uma medição a várias profundidades pelo facto do nível do ruído poder variar significativamente ao longo da profundidade. Utilizando estas medidas e conhecendo a batimetria da zona em observação, aplicamos um modelo de propagação de acústica submarina para gerar um mapa de ruído em profundidade e distância?, refere Friedrich Zabel, também Eng.º de Sistemas e Computação.
O nosso equipamento de medição compacto é composto por uma cadeia vertical reconfigurável de hidrofones. Este equipamento permite-nos trabalhar praticamente em qualquer tipo de embarcação e dá-nos a possibilidade de estarmos disponíveis para efectuar as medições quando nos for solicitado, em qualquer zona do país?, continua Friedrich Zabel.
Colunas subaquáticas: mais do que ouvir, permitem sentir a música.
Uma das ofertas que os quatro jovens investigadores lançaram no mercado português é o AquaSOM, uma solução de som subaquático para piscinas, lagoas ou que pode utilizada no mar baseada em colunas subaquáticas da Lubell Labs, que se caracterizam por poderem ser facilmente integradas com sistemas de áudio convencionais.
No fundo, e como explica Celestino Martins, Eng.º de Eléctrica e Electrónica, ?a Lubell é uma coluna subaquática que se pode ligar a um aparelho de Hi-Fi comum, a um simples leitor de CD, um computador ou um qualquer microfone?.
É que, na água, mais do que pelo ouvido, o som é sentido pelo corpo humano, o que acontece por este ter uma densidade próxima da densidade da água. O resultado é a sensação de que o som vem de todas as direcções em simultâneo, além de que é extremamente cristalino e limpo ? uma espécie de Hi-Fi natural. Acresce que a qualidade do som escutado debaixo de água é ainda melhor do que fora de água, na medida em que o ruído no ar não é ouvido dentro neste meio.
O sistema AquaSom é ideal para, por exemplo, ouvir a nossa música favorita enquanto mergulhamos, nadamos, ou relaxamos no sossego da nossa piscina?, adianta o quarto membro da equipa de investigadores, António Silva, Eng.º de Sistemas e Computação actualmente a fazer doutoramento na UAlg. Este sistema encontra ainda aplicação em escolas de mergulho, assim como em actividades científicas.
A tecnologia que está na base do funcionamento do AquaSom tem já sido muito utilizada mundo fora, por exemplo em festivais de música subaquática, na produção de vários filmes como o Titanic, O Abismo e Harry Potter, além de ter sido usada nos Jogos Olímpicos entre 1984 a 2004 para a modalidade de dança sincronizada.
Colocado pr: Manuel Luís - e-mail
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